Lápide



 


Coisa estranha são as lápides
Dizem que servem para marcar onde jaz alguém,
Mas não quero que digam onde estarei depois de morto.
Não! Não quero que visitem meu morto corpo,
Que não me encontrem neste estado terminal.
Lá não haverá nada que me pertença,
Resto que não me servirá mais.
Não quero que ergam um sinal
Na campa que manterá essa carne corrupta presa.
Não haverá nada lá para ver.
Não quero que chorem sobre minha lápide,
Até porque não haverá uma.
Quero que sorriam, vivam, dancem, cantem!
Vivam suas vidas, porque eu terei vivido a minha.
Se tiver que chorar, chore apenas meio dia
E depois sorria!
Não, não! Não chorem por mim,
Fiquem alegres, porque eu estarei alegre onde estiver.
Se tiver que me dar flores, dê hoje...
Porque amanhã não precisarei mais delas.
Se tiver que me amar, ame hoje...
Porque amanhã já não poderei retribuir.
Mas se insistes em uma lápide colocar
Que então escreva assim:

Pobre poeta
Viveu poetizando
Sua própria morte!

Mas que não se coloque data,
Pois aqueles que me conhecem
Sabem quando nasci
E ninguém precisa saber quando morri.
Que não se escreva
“Filho amado” ou “Esposo querido”,
Já que isso não encerraria meu ser
E não devo ser merecedor de tal honra.
Não. As lápides não são capazes
De contar minhas histórias,
Meus desamores e amores,
Meus sonhos e pesadelos
Não. As lápides são pedras frias
Que não se aquecem com o calor
Da existência amada.
Na minha campa não se deposite
Tristezas, quero a alegria de pensar
Que tudo que deixei para trás... vive.
E vive sem mim,
Que reconfortante é saber que minha morte
Não fará o mundo parar
E a primavera de Pessoa acontecerá.
Não quero festejos pela partida,
Tampouco pela permanência,
Quero o descanso em paz
Que o padre dirá no final,
Quero o descanso da morte
Da morte eterna do corpo
Para a vida eterna do espírito

J.P de Alcântara

Comentários

  1. Gostei! É um querer e não querer. No fundo, o desejo de eternidade do poeta.

    ResponderExcluir

Postar um comentário